O figurino está lá, mas parecem não ver

A profissão de figurinista é esquecida pelas faculdades, que apenas contemplam áreas aparentemente mais valorizadas do cinema e da televisão

Para a produção de um conteúdo audiovisual, seja curta ou longa metragem, clipe, telenovelas, shows até seriados, é necessário um longo trabalho de produção e neste processo entram o figurinista e sua equipe, que são responsáveis por entender cada personagem e a partir disso elaborar e providenciar as roupas adequadas.

O que parece um trabalho simples na verdade é extremamente complexo. É necessário destrinchar o roteiro inteiro, pensar em cada cena para cada ator, inclusive os figurantes, ir atrás das roupas e ter controle do que e de onde vem cada peça, arrumá-las no camarim e, por fim, devolvê-las nas respectivas lojas. Outro fator que complica, em especial no Brasil, é a falta de dinheiro separado para esta função, ressaltando que é necessário mais de uma mesma peça para as gravações, já que incidentes acontecem e há cenas que personagens precisam se sujar (como cenas de morte com sangue); para conseguir montar todas as combinações, os figurinistas usam do seu acervo pessoal, vão a lojas que alugam roupas justamente para este enfoque (brechós e lojas de alugues de figurino) e em último caso compram roupas novas (lojas de shopping não emprestam para gravação, pois estas ficam danificadas, diferentemente dos editorias de moda).

Agora para conseguir pensar em toda a questão logística e de moda para elaborar todo um figurino, seja de produções menores até as telenovelas da Rede Globo ou filmes de sucesso, é necessário conhecimento do mundo fashion, história da moda, questões orçamentárias, processos para a produção audiovisual, além de questões sociais que devem ficar ainda mais expostas pelas roupas; e a partir disto entra a questão: onde consegue-se tal bagagem no Brasil? No país não há nenhuma faculdade ou tecnólogo para a área, nem mesmo os cursos de cinema ou moda incluem disciplinas relacionadas, portanto restam apenas opções de cursos de curta duração ou formação em outro país. Segue como exemplo o curso de Produção de Moda e Figurino para Cinema e TV oferecido pela escola B_arco em Pinheiros (São Paulo) e ministrado pela Figurinista Alice Alves que é formada em Relações Públicas e fez grandes produções no Brasil, o curso é de 4 dias (noite) e nele tem-se as noções básicas sobre a logística das produções, entendendo-se sobre burocracias, funções dos diversos “funcionários” que compõe a produção do conteúdo (não só figurinistas), a divisão de trabalhos dentro do figurinismo, o que é fundamental e como se comportar nas horas de gravação, lojas que trabalham com este mercado, além da análise de figurinos.

Pesquisar sobre a área ou até presenciar cursos como o citado a cima possibilitam um novo ponto de vista sobre o papel do figurinista, mostrando que muito se deve evoluir, como nos mercados que envolvem este trabalho (exemplo, não existe no Brasil, nem com entrega online, uma loja de lingeries antigas que poderiam ser usadas em produções de época), o salário que não é dos melhores, a falta de oportunidade para a formação desta profissão e a falta de valorização, ou seja, parecem esquecer o quanto o figurino é fundamental para esclarecer e dar vida aos personagens.