Folks: o caso de sucesso de uma banda independente no Brasil

Como a banda lida com o preconceito para continuar na estrada.

A ideia para a capa do 1º álbum veio de um sonho do vocalista. Foto: Divulgação.

A banda carioca Folks, formada em 2011, por Kauan Calazans (voz), Luca Neroni (guitarra), Paulinho Barros (guitarra/voz), Vitor Carvalho (baixo/voz) e Ygor Helbourn (bateria), gravou seu primeiro disco, lançado em julho de 2015, no estúdio Toca do Bandido no Rio de Janeiro. A banda, que tem diversas influências, como rock dos anos setenta, grunge e hardcore, define sua música como um som contemporâneo com referências clássicas.

Conversamos pelo WhatsApp com o vocalista Kauan Calazans, que teve sua primeira banda aos 14 anos de idade, sobre as dificuldades de ser uma banda independente no Brasil, o relacionamento com os fãs por meio das mídias sociais, o Spotify e outros assuntos.

Quando questionado sobre como a cena independente mudou desde o início de sua carreira, o vocalista afirma que “deu uma saturada, começaram a ter muitos eventos, com muitas bandas e a qualidade era muito ruim, inclusive, a minha primeira era péssima, mas a gente fazia show todo o final de semana. As pessoas iam num evento querendo ouvir bandas “maneiras”, e a maioria das bandas não eram boas, então não iam mais. Hoje em dia a qualidade está muito boa, não tem mais eventos com 10 bandas, a não ser festivais, você vai num show tem 3, 4 bandas no máximo.”

Sobre o maior desafio em relação à indústria musical, Kauan diz que estar nesse mercado já é um desafio, em todos os segmentos. “Não basta ter talento, estar fazendo um trabalho legal, você tem que ter sorte também. Para mostrar o seu trabalho, ou você tem um contato muito ‘quente’ ou tem que ter dinheiro para ter uma assessoria, para uma galera que vai te botar em um programa de TV, nos jornais, tocar na rádio e tal. Na verdade todas as profissões têm as suas dificuldades, o grande lance é que ser músico não é visto como profissão, ainda tem muito preconceito. Há alguns meses a gente foi fazer uma turnê em Austin, Texas, e lá a galera realmente tratava a gente como profissionais. Aqui é uma luta muito grande, não só das bandas independentes, até do mainstream, para ter uma banda não basta ter os integrantes no palco, tem o produtor, o engenheiro de som, o técnico de luz, os roadies, o motorista, enfim, gera uma quantidade de empregos enorme,” Kauan acha que o maior desafio é esse: ser respeitado como trabalhador.

Para o músico a cena atual está renascendo com força total. “De 2012 para cá, nós da Folks, com algumas bandas locais do Rio de Janeiro, começamos a criar um movimento que se chamava ‘Cena Vive’. A cena vive, o rock está rolando, só que é muito difícil mostrar o seu trabalho para grande massa, então, quando o pessoal não está vendo, acha que não tem nada acontecendo.” Ele conta que o movimento Cena Vive, começou a agregar valores, como priorizar o coletivo, deixar o ego de lado, das bandas se ajudarem, fazerem os próprios eventos, arrumarem novas oportunidades para outras bandas e não pensar só em si mesmo, “então foi muito legal para gente levar para nossa vida.” Sem assessoria de imprensa, sem nada, o movimento fez tanto barulho que conseguiu sair numa capa do jornal (O Globo). “Criaram movimentos baseados no nosso em São Paulo, em Minas e na Bahia. Tem se expandido bastante e o que a gente quer pregar é isso, que o coletivo vai fazer a diferença, tem espaço para todo mundo, então, se a gente trabalhar junto em prol de algo maior que é a música, a renovação da música, oferecer música boa e nova para as pessoas, aí tudo vai ser melhor para todo mundo, não só para todas as bandas como para o público,” disse.

Apesar das dificuldades, a banda lota casas de show. Foto: Vinícius Giffoni

Apesar das dificuldades, a banda lota casas de show. Foto: Vinícius Giffoni.

Sobre as vantagens de ser uma banda independente, ele diz que “você faz tudo da maneira que quer, não precisa pedir autorização para ninguém. A gente lançou nosso primeiro disco em julho de 2015 e ele chegou a ser o 3º álbum de rock mais vendido do iTunes. Então a gente consegue atingir patamares grandes sozinhos sim, mas de certa forma a gente também fica um pouco limitado. Não tem ninguém que vá resolver para gente, apesar de a gente ter pessoas que nos ajudam, que nem a nossa produtora executiva e o selo Toca Discos que lançou nosso disco, mas não tem como a gente se acomodar, a gente tem ajuda, pessoas que estão somando no time.”

Em relação às mídias sociais, Kauan diz que elas “ajudam por conta de ter um contato bem próximo com a galera que curte o seu som, mas ao mesmo tempo em que e fácil para as pessoas que já te conhecem te achar, acho que a internet como um todo tornou muito difícil de achar pessoas novas, porque tem muita informação. O spam não funciona mais, tinha uma época que a galera ficava mandando spam e até funcionava, hoje em dia não mais, então se deve pensar outras estratégias para que na internet você consiga ampliar o seu público. É ótimo para gente porque já temos uma base de fãs, então conseguimos manter contato com todo mundo, a gente conhece muitos dos nossos fãs, conseguimos saber o que eles estão querendo, o que estão gostando e o que não estão gostando, então isso é ótimo.”

O nome da banda surgiu quando Kauan estava ouvindo a versão de "Stand By Me" do John Lennon. Foto: Daryan Dornelles

O nome da banda surgiu quando Kauan estava ouvindo a versão de “Stand By Me” do John Lennon.  Foto: Daryan Dornelles.

Todos os integrantes da Folks são responsáveis pelos posts de todas as mídias sociais. “Temos nossa produtora executiva que nos ajuda, mas a gente que está de frente nisso tudo, até para gente realmente acompanhar o que a galera está comentando, o que estão respondendo, quais são as opiniões dos fãs em relação aos posts e ao caminho que a banda está tomando.”

Quanto aos serviços de streaming de música, como o Spotify, o vocalista se mostra favorável. Segundo ele “é uma das saídas de se criar uma nova estratégia, para conseguir ampliar o seu público. A Folks está em todas as plataformas digitais e, no Spotify, conseguimos um destaque muito grande, a gente conseguiu um número muito grande de plays na nossa página diariamente, e o próprio Spotify começou a incluir nossas músicas nas listas oficiais deles, junto com artistas maiores, já consagrados, então, a partir dessas listas, as pessoas começam a conhecer a banda aleatoriamente e a seguir nossa página. Isso tem acontecido muito, esse lance das listas eu acho que foi sensacional, não só dá uma qualidade de música boa e variada para o público, como para a banda se mostra uma oportunidade de ter uma janela para pessoas que não nos conhecem ouvirem o nosso som, é o novo rádio. Isso acontece sem a gente precisar pagar ‘jabá’ nenhum e sem ser um lance forçado porque a pessoa escolhe direto a lista que vai ouvir, então vamos direto ao público-alvo, graças ao Spotify,” conclui o vocalista.