A vida real na Vila Cruzeiro

Conversamos com Malvina Beatris Souza, presidenta da Associação de Moradores da Vila Cruzeiro (AMOVICS), sobre sua vida e a realidade da maior Vila do estado.

Bia em uma de suas muitas reuniões na AMOVICS. Foto: Edson Barney.

Pode-se dizer que Bia é uma relações-públicas por natureza. Academicamente, ainda é aluna do curso de serviço social. A conheci em uma entrevista para voluntariar apresentando uma oficina mensal para os adolescentes assistidos na sede sobre comunicação e ética, com objetivo de fazer a diferença na comunidade e adicionar o voluntariado ao meu “personal branding”. Contei minha curta história de vida e ela fez o mesmo. Bia tem 52 incríveis anos que convergem com os da Vila Cruzeiro, pois sua avó paterna foi uma das primeiras mulheres negras a ocupar o morro e ela foi morar na comunidade aos 6 meses de vida. Vale muito conferir nosso resumo dessa guerreira que acaba tendo de realizar a função de RP da AMOVICS.

Vocação e Compromissos

Bia descobriu que tinha vocação para mudar histórias aos vinte e dois anos. Organizar as necessidades das organizações, representá-las em eventos e falar com as pessoas é um dom natural seu. Ela diz gostar de gente, de estar com as pessoas e, principalmente, com aquelas que convivem com ela, sua família e sua comunidade. Hoje, além de Presidenta da AMOVICS é educadora social na Associação de Mulheres Solidárias da Vila Cruzeiro (Assmusol), organização encarregada cuidar da gravidez na adolescência, informação para controle da natalidade e das várias formas de violência que as mulheres sofrem desde o nascimento. Também atua na Assessoria Parlamentar do deputado Federal Marcon (PT).

História pessoal

Beatris chegou a Vila Cruzeiro junto aos pais quando era um bebê, eles decidiram morar próximos da avó paterna, que os ajudaria muito. A entrevistada cresceu vendo muitas casas sendo colocadas em cima de caminhões e levando famílias para a Restinga, Barro Vermelho, Lomba do Pinheiro ou outro lugar qualquer. A avó foi uma das moradoras que resistiram e ficaram na comunidade, junto com a atual presidenta da Associação local, que conta: “Me criei aqui com mocinhos e bandidos, mas muito mais mocinhos. Aos 11 anos perdi meu pai. Aos 12, parei de estudar e fui trabalhar de doméstica. Era a mais velha de seis irmãos. Aos 18 tive meu primeiro filho e, aos 22, já tinha quatro. Foi aí que surtei e fiz sozinha meu projeto de vida!”

Trajetória profissional

Para complicar mais um pouco a situação, Bia ainda teve mais uma filha e, aos 28 anos, no início dos anos 90, voltou a estudar e trabalhava em dois empregos. Separou-se do marido, militou nos movimentos sociais e virou conselheira e presidenta do CMAS-POA (Conselho Municipal de Assistência Social). Logo descobriu a vocação para Conselheira Tutelar e atuou por três gestões como titular dos bairros Glória, Cruzeiro e Cristal. A presidência da Associação de Moradores da Vila Cruzeiro veio pela primeira vez no governo Fernando Henrique. Naquele momento, a associação estava no Cadim, com dívidas. Foi aí que Beatris e seus parceiros juntaram toda a papelada solicitada e criaram o projeto para o edital “comunidade solidária”, iniciativa daquele governo voltado aos adolescentes. A partir daí, passaram a acumular mais conquistas.

Situação na Cruzeiro

Minhas idas e vindas na Cruzeiro começaram após o encaminhamento para voluntariado na Parceiros Voluntários. Entrei como voluntário para auxiliar na comunicação da entidade e a cada ida conhecia um pouco mais da situação do local. O mais impressionante é a existência de muitos gatos de luz entre as curtas passagens de acesso às casas e pessoas aparentemente sem uma ocupação formal a cada esquina, fatos que dificultam, inclusive, os trabalhos da Associação com os adolescentes. Bia nos evidencia isso em poucas palavras: “Como todas as vilas, temos vários problemas com lixo, falta de luz, bocas de lobo sujas, praças abandonadas, violência e mortes. Ainda hoje adolescentes e jovens estão morrendo, digo, se matando. Nós todos podemos contribuir para um mundo melhor. Hoje sou eu, meus filhos e meus amigos, amanhã serão os nossos aqui ou em outro lugar. Comigo já esteve muita gente boa.”

A AMOVICS hoje

Bia retornou a Amovics em 2006, data na qual atendia 40 crianças e adolescentes de portas fechadas. Após 8 anos de batalhas, a equipe formada por Bia já trabalha para atender a quase 100 jovens na comunidade. Todos trabalham auxiliando as crianças e suas famílias. A diretoria toda é voluntaria, portanto, trabalham em outros empregos e há uma gestão compartilhada na qual todos tem tarefas, reunião e serviços.

Curta a Amovics: facebook.com/amovicspoaVagas para voluntariado estão abertas.