A faculdade e o choque com o mercado de trabalho

“A faculdade te instiga a ser um profissional maravilhoso. Mas uma falta que eu tinha, que eu sentia e não sei se vocês sentem, é que tem muito professor teórico e pouco professor preocupado com o mercado”. Foi o que a Daira Cabral, de 32 anos, relações-públicas diplomada pela Famecos, respondeu quando questionada sobre a visão de mercado no começo da carreira. Ela completa dizendo: “Segundo o que os livros te dão, é tudo lindo e tudo perfeito. Só que, no momento que vocês vão para o mercado de trabalho, acaba sendo muito diferente do que a gente aprende na sala de aula. Eles estimulam os profissionais do futuro, inovadores e criativos. Só que a gente vive num momento de crise no país, então, o primeiro corte que tem dentro das empresas é a área de comunicação. Vão cortar merchandising, propaganda… tudo! O que o mercado quer hoje é um profissional multifuncional, que saiba fazer tudo. E a maioria das empresas são conservadoras, elas querem que vocês sigam a cartilha, que sejam criativos, dinâmicos e inovadores, mas sempre dentro daquilo. Não é toda empresa que te deixa viajar muito e crescer nesse ponto. Mas vocês conseguem fazer uma coisa inovadora dentro do padrão deles.”

Daira Cabral é diplomada em Relações Públicas pela Famecos e trabalha na área de Marketing. Foto: arquivo pessoal.

Daira Cabral é diplomada em Relações Públicas pela Famecos e trabalha na área de Marketing. Foto: arquivo pessoal.

Ela também deu uma dica de filme, o “Vida de Inseto” e disse que ele fala disso, como as formigas agem e como elas se comportam quando chega o novo. “O que acontece quando alguém tenta inovar? É recriminado. Porque elas estão acostumadas a fazer uma coisa que sempre deu certo. Então o cara que quer inovar, no início, vai ter problemas e ser criticado. É assim que funciona.”

Perguntei para ela sobre o papel da faculdade nesse choque de realidade que a gente tem quando encontra o mercado: “Na minha época a gente só desenvolveu a prática dentro dos projetos. Ou tu és o cara que, desde o início, pega estágios na área ou espera a faculdade te desenvolver em monitorias. Dentro da faculdade, no curso, só em projetos. Porque a faculdade te dá a teoria. Tem muitos alunos que saem da sala de aula, mas são teóricos, não se desenvolvem. O aluno sai da aula e acha que é tudo maravilhoso, mas chega no mercado e ele trava, porque ele não teve essa vivência antes. A faculdade não te traz a experiência de mercado.” Ela diz que o melhor é pegar como base professores que estão no mercado, porque trazem isso e que a teoria dá embasamento para vida prática, mas que nem sempre a vida prática vai ser como a teoria. E completa: “RP te dá subsídio para várias áreas, mas viajar com as tuas ideias não é toda empresa que permite. O mais legal de RP, na visão de atuante na área comercial, é que te dá a habilidade de lidar em diversos lugares. Ele se transforma e transforma tudo o que a empresa precisa. É isso que a gente tem que saber. Conseguir tirar as ideias do papel, é com cada um. Mas sim, vocês ficam frustrados quando chegam no mercado para estágio ou trabalho, porque vocês veem que não é um mundo dos sonhos. Vocês podem fazer no mercado como o Guilherme Alf, que é um cara teórico com um baita poder de persuasão com as pessoas.” Ela também fala que não é que o profissional não seja preparado. O problema está em conseguir a carta branca para o topo e que as empresas nem sempre são tão abertas o quanto parecem.