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Cláudio Matone, 27 anos, é gerente do Canal Café, situado dentro do Campus da PUCRS. Formado em Administração pela Pontifícia, Cláudio conta que os primeiros passos para o Canal surgir não foram fáceis – e foi um caminho cheio de tropeços. “Eu sou uma pessoa muito inquieta”, contou à reportagem. Nessa inquietude, o sonho começou após quatro anos morando em Boston, nos Estados Unidos. Desde que voltou ao Brasil, o empresário não conseguiu se contentar com o que havia no país, sobretudo em Porto Alegre. Em Boston, era acostumado com a rotina de estudante que era acompanhada por um café, geralmente Starbucks; mas no Brasil, isso fez falta. A partir do dia a dia, Cláudio enxergou uma oportunidade para criar seu próprio café. Desde o início procurou sua principal inspiração, a Starbucks, que negou a proposta de vir para o Sul.

A falta de interesse dos presidentes da rede norte-americana em investir mais no Brasil foi a mola propulsora para a existência do Canal Café. Mesmo que o projeto tenha levado quatro anos para ser concretizado, hoje Cláudio não se arrepende de nada. Recebeu muito apoio de professores e da direção do TECNOPUC, que comprou a ideia assim que o recebeu. Apesar de o negócio aparentar sustentabilidade, o Canal Café funciona em contêineres por conta de uma indisponibilidade de outro espaço. O sócio afirma que, embora pareça, o café não possui uma rede sustentável – utilizam demasiada energia elétrica, por exemplo.

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“Canal. O que é canal? Canal é o meio entre duas coisas, enfim, então a gente é um, na verdade, um café é uma desculpa pra um network. Então, o Canal vem pro meio de unir empresas, estudantes, gerar negócios, gerar ideias”. Leia entrevista completa:

 

RRPP Online – Quanto à segmentação de públicos, vocês conhecem o fracionamento do público? Quais são os principais públicos?

Matone – Se eu tenho uma curva A, B, C? Sim! Nosso público é dividido em 20% ou 25% TECNOPUC, 30% Marista Champagnat e o restante se divide entre alunos e professores da PUCRS.

RRPP Online – Como foi realizada a  segmentação?

Matone – Foi um longo processo, muito usado por mídias sociais, focando bastante no nosso Facebook e no nosso Instagram. Por interesse conseguimos segmentar e assim escolher se quero atingir o pessoal da Famecos, ou por próprio “onde você estuda?”, que tu consegue botar lugar de estudo, tem muita gente que põe. Algumas faculdades tu consegue fazer isso, a Famecos é uma delas, Direito é uma delas, a FACE tu não consegue. Então, acaba que essas faculdades que conseguimos atingir diretamente pelas mídias sociais são mais fortes aqui. Porque a PUCRS tem essa restrição de não poder fazer marketing dentro do Campus, então eu não posso panfletar aqui, por mais que eu queira muito.

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RRPP Online –A “panfletagem” nas entradas da PUCRS é uma boa divulgação para o café?

Matone – Eu ganharia uma clientela, mas a minha grande clientela é, digamos assim “culta”, com um poder aquisitivo levemente mais alto, mesmo que os meus preços sejam mais baixos ou iguais aos dos outros bares, porém, na percepção das pessoas, somos um bar conceito mais caro. Então, não me faz muito sentido eu panfletar na frente dos ônibus. Faz mais sentido eu panfletar pra todo mundo que vem de carro, porque é um público, que em teoria, tem um poder aquisitivo mais alto. Mas também atendo muitas pessoas aqui que usam ônibus e que têm a renda mais baixa, até porque não é uma cafeteria cara. Não segmentamos por preço. Segmentamos por conceito, focamos em diferenciação, não por custo. Então, poderia fazer uma panfletagem lá na frente, mas também ia muita coisa fora, porque, não necessariamente estudantes e trabalhadores do campus passam por aqui. Eu prefiro dar um tiro certeiro. Hoje, ainda usamos muita mídia social, faz muita parceria com faculdades, com as faculdades aqui de dentro. A gente vai ministrar duas cadeiras esse semestre, não eu específico, mas o Canal como empresa. E assim a gente vai divulgando, a gente trabalha muito no boca a boca. E a própria marca, eu estimulo… O nosso conceito é “take-away”, justamente pra pessoa passar e ver a marca. Alguém olha e automaticamente traz, diferentemente de todos os outros bares da PUCRS.

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RRPP Online – Sabendo o diferencial, o conceito e o tipo de público, a gente queria saber se tu tem uma ideia do por que as pessoas vem ao Canal Café? Se é para consumo, estudo, encontros? Existe um público fidelizado?

Matone – Possuímos um público bem fiel. Quem vem aqui, normalmente, retorna. Claro que tem muita gente nova, todos os dias. Mas normalmente quem vem aqui, faz reuniões, estuda ou simplesmente porque está com pressa e quer alguma coisa rápida. Em questão de cafés, acredito que a gente tem um café melhor e diferenciado. Nem tô dizendo que a gente tem as melhores comidas, não! Comida é o meu agregado. Então, eu instigo vocês a provarem o nosso café, mas o pessoal vem pra cá justamente por isso, porque é um ambiente mais tranquilo, mais fora, ele não é no meio da multidão da PUCRS. Ele é um ambiente muito agradável, mais natural e diferente, não é um local encontrado em outras partes de Porto Alegre. Tem um pouco de cada coisa.

RRPP Online – Os outros bares do campus são vistos como concorrência?

Matone – Considero uma concorrência direta! Por quê? Porque em um dia de chuva eles se tornam mais ainda uma concorrência. As pessoas não vão querer se locomover em um dia de chuva para cá. E baixa, baixa uns 40% de público, se chover de dia à noite. Assim, me considero diferente deles. Enquanto os bares são todos iguais e oferecem as mesmas coisas, da mesma forma, eu ofereço uma coisa diferente, mas não quer dizer que as pessoas não vão deixar de vir aqui pra ir lá. Então, eu considero que eu tenho uma vantagem competitiva sobre eles.

RRPP Online – São realizadas campanhas nas mídias sociais que para mobilizar quem passa pelo campus?

Matone – Muitas. Muitas campanhas. Com o tempo, descobrimos que fazer enquetes todo início do mês, dizendo ‘a Faculdade que mais votar ganha 10% de desconto durante todo o mês’ é muito útil. Quem ganha? Direito, a Famecos – que ganhou esse mês, caso vocês não saibam…

RRPP Online – As métricas são utilizadas como recurso? Tem alguma automação e/ou programa?

Matone – Utilizamos duas mídias sociais fortes: Instagram e Facebook. Ambos se usa o “what is a manager” para fazer todas as campanhas. No início a gente realizava uma campanha de likes, não fazemos mais isso, porque queremos ter apenas likes orgânicos. É importante vocês saberem que o Facebook distribui cada mensagem, cada post que a gente faz pra, acho que baixou agora pra 7%, mas antes era 12% da tua população. População são quantas pessoas curtem tua página. Então, quanto mais pessoas “inúteis” tu tem na tua página, menos pessoas que importam veem teu post. Certo? Então tu tem que pagar mais dinheiro, para que as pessoas que realmente importam vejam teu post. Então tu paga duas vezes: tu paga pra ter likes que não importam, e tu paga pra ter, de novo, a divulgação para as pessoas que importam. Então hoje temos alguns públicos bem segmentados, tipo:  PUCRS – Estudantes, PUCRS – Recém-entrados, PUCRS – Formandos, TECNOPUC. Temos alguns públicos para diferentes posts. Por exemplo, fazemos eventos aqui, como formaturas e coisas assim. Preciso fazer, dedicar esse post para as pessoas de 17 a 20 anos? Não, não preciso. Porque essas pessoas não estão se formando. Então segmento sempre pessoas de 21 a 23 anos.

RRPP Online – Agora a gente queria saber se vocês tem bastante interação no Facebook. Se parte de vocês essa interação, se parte das pessoas, se vocês respondem os comentários.

Matone – Parte, a gente responde os comentários, a gente raramente instiga novos comentários. Alguns posts são: O que tu prefere? Prefere isso ou prefere aquilo? A gente sempre responde os comentários, sempre lê. Mesma coisa os reviews etc. Gosto de saber quando dá alguma coisa errada.

RRPP Online – O café tem um responsável pelo gerenciamento das redes sociais?

Matone – Temos! Uma pessoa terceirizada, além de mim.

RRPP Online – Essa pessoa tem alguma formação?

Matone – Sim, em Publicidade e Propaganda.

RRPP Online – A gente queria saber se vocês usam o conceito de mesa compartilhada. E senão, se vocês tem outras ideias que vocês aplicam aqui ou querem aplicar.

Matone – Não usamos o conceito de mesas compartilhadas – por mais que eu ache muito divertido. Por que eu não uso o conceito de mesas compartilhadas? Duas razões: razão primeira, porque para isso eu teria que ter uma mesa compartilhada, certo? Se eu tivesse uma mesa compartilhada, grande, eu não tenho espaço para mesas individuais. Aqui embaixo, pelo menos. Lá em cima, eu teria. Se eu não tenho espaço pras mesas individuais, eu mato a minha principal missão. Vamos puxar lá pro branding, que eu gosto. Canal. O que é canal? Canal é o meio entre duas coisas, enfim, então a gente é um, na verdade, um café é uma desculpa pra um network. Então, o Canal vem por meio de unir empresas, estudantes, gerar negócios, gerar ideias. Então, se eu ponho uma mesa compartilhada, por mais que vá gerar interação, também “mata” uma reunião mais privada. Então, por isso que não há uma mesa compartilhada. Eu já estudei colocar uma lá em cima, só compartilhada, e optamos por colocar várias pequenas. Não quer dizer que não vamos botar uma mesa compartilhada em algum momento. Acho muito legal e adoro bares que usam essa ideia

RRPP Online – A sustentabilidade faz uma empresa engajar-se no conceito social, da natureza e do bem estar, trazendo um novo nicho de consumidores, mas também se faz mais parte da atração, do marketing do local. Qual o posicionamento do Canal nesse trending?

Matone – O Canal não é uma empresa sustentável, certo? Eu falo isso sempre. Por quê? Porque uma empresa sustentável é sustável a partir de quatro pontos, um dos quais eu sempre esqueço, então não vou me lembrar, mas é econômico, ambiental, social e mais algum outro. Vamos de novo: economicamente, a gente é sustentável; socialmente, a gente tenta ser. A gente tem fornecedores locais, os quais a gente estimula produtores locais, a gente deixa de fazer negócio com alguém de fora pra fazer com alguém daqui. Então a gente tem um cuidados com a sociedade. Enfim, nossos funcionários estão todos com a carteira assinada. Ok. Tem muito mais o que fazer. Todos os meus fornecedores são registrados? Todos eles… Toda minha cadeia tem as mesmas regras? Não sei. Então pra tu ser sustentável, tu tem que ter a tua cadeia inteira junto. Então eu não posso dizer que eu sou ambientalmente. A gente tem os nossos valores, como empresa, tomar conta do ambiente, ser ambientalmente amigável. Agora estou estudando colocar painel solar aqui, mas ainda não se paga. Demora seis anos pra pagar o investimento. Então é um investimento muito muito alto. Nossa energia, querendo ou não, a gente gasta energia. Água a gente gasta pouca água. Porque todos os nossos produtos vêm em embalagens feitas para serem recicladas. Então a gente não lava nada. Em compensação, a gente pode reciclar tudo que a gente produz de lixo. A PUCRS exige coleta seletiva, então tudo isso funciona. Mas como eu te disse, a gente não… O nosso conceito, é tudo bem, tudo reaproveitado, os containers são reciclados. A gente não teve gasto de matéria-prima desnecessária, mas isso é muito mais um valor da empresa, meu possivelmente, do que um uso de diferencial competitivo. As pessoas vêem, as pessoas gostam e acaba sendo um diferencial competitivo, mas não é por ser sustentável, porque a gente não é sustentável. As pessoas podem até pensar que somos, gostar de pensar que elas estão comprando em um lugar 100% sustentável, mas não é verdade. A gente só tem práticas melhores que a maioria das pessoas e empresas, isso sim, eu acho. Pelo menos em ambiente.

Por: Amanda Cabreira, Andressa Soares, Betina D’Avila, Glória Rückert e Tom Hofstätter